e·pí·to·me
Num momento Clarice Lispector, uma de minhas adoradas referencias, venho escrever. Não por que quero, mas porque preciso.
Preciso de alguma maneira sintetizar os últimos acontecidos, os últimos dois anos da minha vida, meu último romance.
Aos 24 anos, nada é como imaginei. Aquela menina de 14 anos a quem tenho tanto apego não poderia prever o que aconteceu comigo. Todas as máscaras, todas as lágrimas, toda a fé, todos os dias, até encontrar a verdade.
A gente só vê aquilo que quer.
Como explicar o borrão dos últimos anos?
Como um viciado que luta cada dia para ficar sem sua droga, um dia após o outro eu lutei, e juntei forças, criei coragem e pude colocar fim a um relacionamento disfuncional.
Coragem. Aos 14 tudo que eu tinha era coragem, aliás era a única coisa da qual eu realmente me orgulhava. Tantas vezes eu tive coragem pra mudar, e fazer aquilo que eu bem entendia, o que me fizesse feliz. Cultivei muitos amigos de lá para cá. Cultivei também meu relacionamento com meus pais, e minha irmã. Esse maravilhoso labor me rendeu lealdade e o apoio deles quando eu ainda nem sabia o quanto precisava de apoio.
Por uma série de acasos encontrei meu ex-‘marido’, um principe. Me tratava como eu merecia, me respeitava, me dava toda a atenção do mundo, fazia declarações, tinha estilo, fumava um, era culto, enfim, vi nele tudo que eu gostaria em um homem. Mesmo que eu não admitisse na época, eu queria alguém sim. Alguém como ele. Depois de um relacionamento a distancia, com um cara covarde e ausente, tudo o que eu pensei que queria era ficar solteira. Ser senhora da minha vida. Mas eu não quero estar sozinha, quero uma família, quero dividir a vida com alguém, com meu melhor amigo, um amante voraz, bom ouvinte… Tudo isso vi no X. Fiquei absolutamente encantada. Nos via-mos todos os dias depois de uma rotina intensa de trabalho, seguida por horas na faculdade, um ônibus lotado e alguns minutos de caminhada, o que eu mais queria, era encontrar com ele, conversar horas a fio e ficar embriagada das sensações incríveis que ele causava em mim.
Meu racional queria ir com calma, mas meu corpo e meu coração exigiam ele cada vez mais, a cada momento. Mais presente.
Nunca entendi uma ladainha que ele jogava pra cima de mim ‘um dia ainda te peço em namoro’.
Confuso isso. Um sinal, quem sabe… Pra mim era mais um charme, uma vontade de prolongar aqueles encontros diários, aquele frio na barriga de receber uma msg. Ou insegurança.
A insegurança sempre me atraiu - macabro, né. ( Protect me form what I want). O ser inseguro me parecia sempre mais sincero e por isso confiável.
Hoje penso que a insegurança dele - que até então não tinha conhecimento dos traumas e episódios que resultaram nela - foram o combustível para me cortejar, e me conquistar. E que depois disso, quando ele finalmente se sentiu seguro. Ou melhor, sentiu que meu amor por ele estava assegurado, ele poderia voltar a ser quem ele realmente era. Quem sempre foi. Bem diferente da máscara que me conquistou. Bom, de nada adianta o que eu penso, ou não sobre seus motivos e seu estado mental. Não vai mudar o que passou, ou diminuir meu penar.
O fato é que depois de oito (maravilhosos) meses de namoro ele pediu um tempo. O que pra mim foi muito, mas muito incompreensível. Nesse tempo, eu não tinha direito a nada, noticias, saber quanto tempo duraria esse tempo, nem mesmo a ser namorada dele nas redes sociais. Fotos foram excluídas do Instagram. Essas ações agravaram meu desespero. Achei que seria o fim. Talvez, se eu não tivesse batido meu carro, e ele como um príncipe moderno atravessado a cidade na sua bicicleta pra vir me ’socorrer’. (Não que eu não tivesse capacidade intelectual, emocional ou amigos para me amparar nesse momento de aflição.) Mas mesmo assim, quando ele soube, ele foi. E pra mim, na minha angustia de estar sem o meu amor, aquela era A minha história de amor. A história que eu contaria para nossos filhos e netos. A princesa e o príncipe moderno.
Mas depois disso, nem de princesa X não me chamava mais. Carinhos e romance ficaram para trás. Então fui acometida por uma insegurança severa. Chorava sempre que ele viajava a trabalho, não participei de sua grande decisão em ralação a trabalho, mudar de estado. E todo seu comportamento suspeito nas redes social me deixou desestabilizada. Seu comportamento mudou, nossos momentos juntos com amigos e de descontração eram meras formalidades, ele não estava mais interessado na nossa vida social. Aos poucos perdeu o interesse na vida social dele. Então ele estava em outro estado há horas de distancia, de avião, claro. De carro levariam dias.
Assim, fizemos um ano de namoro. Mesmo as coisas não indo bem, me sentia incrivelmente segura ao seu lado, e amada. Ainda havia respeito. Nunca pensei que as coisas pudessem piorar... Os momentos felizes tinham criado raízes no meu penar.
Seu desinteresse na vida virou patologia. Então meu ex-sogro me enviou para trazer-lo de volta. Aqui, com o apoio dos amigos e da família ele poderia ficar bem.
Mas essa vontade de se cuidar, não partia dele. Na verdade, todos tinham essa urgência, menos o X. Acho que foi nessa época que minha paz começou a se exaurir. Mais um sinal...
Nesse ponto as coisa já haviam saído do controle de forma moderada, sua insegurança tomou uma forma violenta, e andar de carro com ele, era sempre uma desaventura. Não preciso dizer que não existia mais romantismo ou vida social. Era só, casa, maconha, filme, e desinteresse. Mas tinha amor, e muita esperança. Desde então o que me segurou foi a esperança, e meu vicio em estar com ele.
Em algum momento, no inicio do segundo ano de namoro as brigas infantis e infundadas me cansaram, e de uma madeira leviana e imprudente tentei terminar.
Fato que ele nuca me deixou esquecer.
Assim as coisas foram se acumulando. Não queria terminar pela patologia dele, mas ele também não queria se cuidar. Vivíamos bem por quatro ou seis semanas e depois ficávamos brigando pelos motivos mais infundados, desses que vc diz, ah desse tipo nunca vou deixar que me aconteça - eu, aos 14 dizia.
Fui levando, acreditando, esperando pelo melhor.
Então numa dessas viradas da vida, em um curto período relativamente bom, fomos morar junto.
Mais precisamente, fui morar junto com ele, que já estava dividindo um ap com um colega. Colega esse que vou te contar viu, folgado, solteiro, bohemio, 'no sense' total.
Por um tempo todos os nossos problemas eram provenientes desse pobre ser que nos serviu de bode expiatório. Quando as coisas estavam intoleráveis, resolvemos, com ajuda do pai dele, claro, encontrar nosso cantinho.
Era o último semestre da minha faculdade, fora o TCC, as seis cadeiras, e o projeto de desfile que eu estava organizando, tinha que lidar com um marido controlador, dependente, mau humorado, que nesse ponto nem me respeitava mais, e tudo isso, era justificado por ele não levar seu tratamento a sério. As buscas, que deveriam ser momentos felizes e cheios de amor pareciam mais uma guerra, cheia de ataques e episódios violentos. Nenhum voltado para mim, ainda.
Logo consegui um emprego na minha área, muito promissor, por sinal. Somado a esperança de uma casa só nossa, que atendesse nossas necessidades, com o homem que eu amava... Não parecia ser mais perfeito para o nosso recomeço, e principalmente para começarmos nossa vida juntos.
Trabalhar, investir na nossa casinha, fazer um pé de meia, viajar, casar, viver, e eventualmente crescer nossa família. Parecia perfeito, e me dava forças pra continuar.
Antes do final do ano estávamos devidamente instalados, em um apzinho maravilho, só nosso com o cantinho de trabalho dele, e até um pseudo-closet! Não podia ser melhor. Cuidei de tudo com muito carinho, e amor. Infelizmente os novos ares e a energia positiva de começar nossa vida com o pé direito se dissipou. Nunca fui tão diminuída, cheguei a acreditar em todas as palavras maldosas que ele me disse. Pensava mercer tudo aquilo e me esforçava ainda mais pra faze-lo feliz, e evitar qualquer briga. Me afastei dos meus amigos e da minha família. Passei Natal e Ano Novo, chorando.
A culpa me consumia, as palavra horríveis que ele me dizia estavam entrando cada vez mais fundo em mim. Eu me transformava em quem ele queria que eu fosse, mas nunca era o suficiente. Eu não vivia mais pra mim. Não pude enxergar nenhum desses sinais… Fizemos dois anos de namoro.
Estava muito triste, não fazia sentido, tinha tudo para ser feliz, ao lado do amor da minha vida, minha casa, trabalhando na minha área. Parei, pensei, refleti. Conversei com meus amigos, minha irmã, e minha mãezinha querida. Que de tudo fizeram pra abrir meus olhos, pra me dar forças e me apoiar. Chorei, chorei muito, mas muito mesmo. Quando pensava que estava tendo um bom dia, sem brigas, ainda assim chorava, não tinha paz. O tempo inteiro eu tinha a obrigação de atender as necessidades dele, e mais, de adivinha-las. Tudo que eu fazia era pra evitar uma briga.
Não sei como, quando, ou porque… Mas de alguma maneira eu vi que eu não era o problema. Que eu estava fazendo tudo além do que eu podia, pra faze-lo feliz. Que nessa saga desenfreada abri mão de mim, e da minha própria felicidade, das coisas que constituíam meu ser. Meus hábitos, minhas músicas, meus hobbies, amigos, e família.
Rezei, meditei, rezei mais, tentei meditar mais. Mas nem esse momento, pequeno momento que tinha uma vez ao dia - nem todos os dias eu podia ter;
Carol, ele gritava, me traz isso. Carol, venha ver isso agora.
Insisti muito e comprei minha briga. Precisava de um tempo pra me recompor, antes que eu também perdesse minha saúde. Quando finalmente, depois de muitas brigas, muito choro e muito penar ele cedeu. Foi pior. Acho que ele nunca foi tão cruel e infantil comigo quanto nas brigas que tivemos durante esse tempo. Em contra partida, pude experimentar de novo a paz.
Sem ele, ou quase sem ele, tive paz.
Paz. Eu tinha esquecido como era.
Mas a esperança é a ultima que morre, e depois de um ano de tempestades, ele se declarou pra mim, disse que ainda era apaixonado por mim. Discordei, não é dessa maneira que um ser apaixonado se comporta, dessa maneira como ele ha tanto tempo vinha se comportando. Fizemos as pazes, promessas e fomos para casa. Não só a paz, eu encontrei também a minha voz, deixei a culpa em qualquer esquina, e me dei o meu valor. Em pouco tempo brigava-mos mais uma vez, sabe Deus por que. Ele perdendo a linha, eu tentando trazer alguma razão para seus pensamentos, insistindo que ele não estava se tratando da devida maneira e que seu comportamento tinha que ser reflexo disso. Eu estava tão cansada, brigando durante tanto tempo… Até que o próprio X terminou cmg. Sim ele terminou cmg, na ilusão de que eu -como ele mesmo disse- imploraria por seu perdão, e pediria pra voltar.
Não.
Dessa vez eu estava consciente e alerta. Não tenho nada pelo que me desculpar. Fiz além do que pude, e ele estava coberto de razão, não deveríamos ficar mais juntos.
Pensando bem não tive tanta coragem assim, afinal eu apenas concordei algumas vezes durante uma longa discursão - o que fez a ‘discursão’ se prolongar ainda mais. De fato, não estávamos mais funcionando.
Depois disso X passou por vários estágios, o inicial, velho conhecido, onde a culpa para todos os nossos problemas conjugais eram minhas, e eu como sempre uma ingrata pois ele fazia de tudo para me agradar. Depois o conformismo, ’todos meus relacionamentos antigos terminaram assim, vc será mais uma ex’. Então a raiva, onde ele disse que eu contaminei a vida dele e transformei o amor que ele sentia por mim em ódio. E então a agressão se tornou física, e a ameaça velada quase se concretizou. Seguida de um desespero, que mais me parecia uma birra. Foi preciso o pai dele para controlar aquela situação. Até que pude ir embora.
Não, não tem mais volta.
Sim os sinais estavam lá, todos viram menos eu.
Mas naquele momento, em que ele me diminua, me humilhava, me tratava mal, eu precisei fazer um esforço tremendo para conseguir unir todas as células do meu corpo, juntar minhas forças e apenas concordar. Não arredar o pé de que o término era sim o que eu queria. E seria a única maneira de estar bem, mais uma vez.
E bem longe dele.
Fazem quase dois meses que me separei, e ainda não consegui resolver tudo - com o Pai dele. Não quero e não preciso ter qualquer contato com X.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário